Fagner lança o álbum “Serenata”

Serenata – álbum que Raimundo Fagner lança na sexta-feira, 18 de dezembro, em edição da gravadora Biscoito Fino – é disco convencional que segue com respeito os estatutos das serestas, refinando a sofrência de tempos idos.

E isso é tanto o vício como o maior virtude do álbum enquadrado em elegantes moldes tradicionais por José Milton, produtor musical de Serenata e responsável pela impecável seleção de repertório, escolhido juntamente com Fagner.

Abrandando os tons rascantes da voz que ecoa influências árabes e ibéricas no canto já maturado, o intérprete aborda standards do cancioneiro seresteiro dos anos 1930 com compreensível reverência, coerente com o conservadorismo do público a que o disco é destinado.

A esse cancioneiro melancólico, apresentado ao Brasil nas vozes viris de cantores como Orlando Silva (1915 – 1978) e Silvio Caldas (1908 – 1998), Fagner adiciona com naturalidade um clássico do próprio repertório autoral – Mucuripe (1972), parceria com o compositor conterrâneo Belchior (1946 – 2017) que alavancou a carreira do artista há 48 anos – e evidencia a melancolia seresteira que jaz no samba-canção As rosas não falam (Cartola, 1976), já gravado anteriormente por Fagner cinco vezes, em discos de 1978, 1981 (em versão em espanhol), 1994, 1999 e 2002.

O sexto registro fonográfico de As rosas não falam por Fagner é conduzido pelo toque preciso do piano de Cristovão Bastos, músico fundamental na arquitetura de Serenata. Em que pese a maestria de Bastos, o que mais agrega valor ao álbum são as tramas dos violões tocados magistralmente por João Camarero (ás das sete cordas), João Lyra e Rogério Caetano.

Bem urdidas, essa tramas refinam o disco, sobretudo quando os violonistas também atuam como arranjadores, como nas gravações de Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), da valsa Lábios que beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo, 1937) – faixa previamente apresentada em outubro como primeiro single do álbum – e Malandrinha (Freire Júnior, 1927), luminosamente orquestradas por Caetano (as duas primeiras) e Camarero (Malandrinha), respectivamente.

Contudo, há espaço para outros instrumentos. O toque da sanfona de Adelson Viana ajuda a contextualizar a ambiência rural de Maringá (Joubert de Carvalho, 1931) – cenário da desilusão amorosa provocada pela cabocla que quebrou coração ao partir – e também embeleza Mucuripe, ao lado de uma segunda sanfona tocada pelo pianista Cristovão Bastos.

A tristeza é senhora no álbum Serenata. O lirismo romântico de letras como a de Noite cheia de estrelas (Cândido das Neves, 1932) acoberta dores de amores expiadas em estreladas noites com luar, imagem recorrente nos versos dos apaixonados.

Mesmo sem alcançar toda a dramaticidade da Serenata do adeus (Vinicius de Moraes, 1958), Fagner revela bom entendimento dos sentimentos e significados dessas serestas.

A gravação de Deusa da minha rua (Newton Teixeira e Jorge Faraj, 1939) – faixa arranjada por Cristovão Bastos em que reluzem as cordas do bandolim de Luís Barcelos e do violão de João Camarero, harmonizado com o sopro melancólico da flauta de Dirceu Leite – exemplifica o requinte de Serenata, álbum sem traços de modernidade no molde atemporal.

Com registro vocal quase aveludado, Fagner aborda a valsa Rosa (Pixinguinha com letra posterior de Otávio de Souza, 1917 / 1937) e também a Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1970) nos tons comedidos deste disco em que o cantor evita rasgos melodramáticos ao interpretar músicas já em si carregadas de intenso sentimento.

Esse entendimento é alcançado somente por grandes cantores como Nelson Gonçalves (1919 – 1998), cuja voz referencial é ouvida no primeiro minuto do álbum Serenata graças ao milagre da tecnologia de estúdio que junta as vozes de Nelson – extraída de registro fonográfico de 1991 – e de Fagner na gravação da música-título do disco, Serenata (1935), uma das parcerias de Silvio Caldas (1908 – 1998) com Orestes Barbosa (1893 – 1966), mestres do repertório seresteiro.

Cantor conhecido pela franqueza por vezes rude, do tipo que nunca fazia gênero, o exigente Nelson Gonçalves aprovaria a serenata de Raimundo Fagner.

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